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Fortaleza preserva o passado colonial

publicado: 04/05/2026 09h30, última modificação: 04/05/2026 09h30
Candidato ao título de Patrimônio Mundial, o Forte de Santa Catarina recebe mais de 70 mil visitantes por ano
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Além da imersão nas origens do Brasil Colônia, a estrutura, erguida em 1589, vem sendo explorada como sede de projetos culturais e artísticos, a exemplo da apresentação de um espetáculo da Paixão de Cristo | Fotos: Roberto Guedes

por Íris Machado*

Centro de memória e cultura, a Fortaleza de Santa Catarina ocupa uma posição de destaque na geografia e na história paraibanas. Localizada próximo à desembocadura do Rio Paraíba, no extremo norte do município de Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa, o monumento remonta ao período do Brasil Colônia. Hoje, a estrutura resiste aos desgastes do tempo como um dos principais cartões--postais do estado, uma de 19 fortificações na lista indicativa ao título de Patrimônio Cultural Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Anualmente, mais de 70 mil pessoas percorrem as muralhas da fortaleza, de acordo com a administração do local. Quem contabiliza essas informações é o gestor Osvaldo Carvalho, membro da Associação Artístico-Cultural de Cabedelo, à frente da Fundação Fortaleza de Santa Catarina há mais de 30 anos. Esse número representa um crescimento de 75% em comparação ao período anterior à pandemia de Covid-19, em 2019 — quando a média chegava, no máximo, a 40 mil visitantes anuais.

“É de importância não só para Cabedelo; a própria visão do forte como um monumento preservado, caracterizado como ruínas, é uma volta no tempo, uma amostra da história viva. Ao vir conhecê-lo, a pessoa aprende história aqui dentro”, observa Osvaldo. “O forte é um representante histórico local, desde sua execução, em 1589. Isso dá uma visibilidade muito grande, inclusive ao turismo. A fortaleza é, hoje, um ponto de cultura, principalmente pelo indicativo de Patrimônio Mundial”, salienta.

Segundo Osvaldo, a concessão do posto depende de uma readequação da estrutura às exigências de segurança da Unesco — considerando, inclusive, a proximidade da edificação ao Porto de Cabedelo, polo de distribuição de combustíveis. O administrador revela que a Fundação Fortaleza de Santa Catarina já vem executando algumas intervenções para aprimorar a proteção e a manutenção do local, e espera contar com o apoio de entidades governamentais — municipais e estaduais — para novas melhorias no ambiente.

Como observa o titular da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), Pedro Santos, o Governo da Paraíba já tem contribuído com investimentos para atividades de zeladoria, preservação estrutural e segurança do forte. “Além disso, fazemos parte de um grupo de trabalho que tem discutido a possibilidade de haver uma gestão efetivamente compartilhada da fortaleza. Esse é um processo que vem envolvendo debates junto ao Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] e à Secretaria do Patrimônio da União [SPU]”, aponta o secretário. “Não há, ainda, uma definição sobre isso, mas integramos o grupo, justamente, para pensarmos alternativas juntos”, completa.

Tendo, entre outras prioridades, a restauração total das muralhas e o firmamento de um plano de uso e ocupação do forte, a ideia da associação responsável pelo monumento é fortalecer seu papel como um museu a céu aberto e atrair mais visitantes com programações culturais sediadas no espaço — a exemplo do tradicional espetáculo da Paixão de Cristo, durante o período da Páscoa.

Arte e inclusão

Entre as iniciativas empreendidas no lugar, há um projeto idealizado pela secretária-geral da fundação, Marieta Rezende. Professora, ela desenvolve um trabalho de arte inclusiva com jovens atendidos pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SPcD) de Cabedelo. A ação começou em 2022 e, hoje, incentiva 22 inscritos a descobrir as possibilidades das linguagens artísticas, nos intervalos entre os acompanhamentos de rotina.

“Quando eles estão pintando, quando estão desenhando, eles estudam o traço, as técnicas do desenho, a história da arte e os artistas paraibanos. Isso proporciona reflexão, conhecimento, e combate o capacitismo, o pensamento de que pessoas com deficiência têm de ser escondidas, que elas não têm condições de reflexão. Eles podem, eles aprendem, eles fazem, eles são capazes. A gente sempre faz essa integração. Em um dos estudos, eu incluí a pipa, que é um um brinquedo popular e bem brasileiro, e a gente veio empinar pipa”, lembra Marieta.

Ambientes abrangem quartel, paióis de pólvora e capela

A construção da Fortaleza de Santa Catarina ocorreu durante a gestão do português Frutuoso Barbosa, capitão-mor da Capitania da Paraíba, no período de 1588 a 1591, sob a supervisão do alemão Cristóvão Linz. A urgência de proteger o território das ameaças externas determinou a escolha do local: a única porta de entrada para um ataque estrangeiro era o estuário do Rio Paraíba, na atual cidade de Cabedelo. As ofensivas que consolidaram a edificação como ponto estratégico, no entanto, vieram dos navios holandeses, no século 17, conforme revela o historiador Rafael Virgínio.

“A fortaleza era usada para fins estratégicos militares. A perda dessa importância aconteceu com o passar dos anos do período colonial, quando as invasões estrangeiras diminuíram no Brasil. Assim como a maioria das regiões e colônias, a Paraíba possui símbolos de resistência e de conflitos internos. A Fortaleza de Santa Catarina guarda, no passado, esses elementos tão decisivos na construção de um patrimônio, e é um forte elemento de memória, que existe até os dias de hoje”, reitera.

A princípio composta por madeira e taipa de pilão, a estrutura original do local enfrentou uma série de remodelações até adquirir uma versão final. Para substituir os materiais antigos, os portugueses trouxeram pedras de alvenaria e cal da capital Lisboa, segundo o modelo arquitetônico clássico da época. No século 18, as reformas incluíram a cobertura do corpo da guarda e o desenho do arco do portão. 

Fortificação foi construída próxima ao estuário do Rio Paraíba, para proteção contra invasores

Ao todo, 20 compartimentos integram o monumento, em uma área total de 12,5 mil m2. Lá, espaços simbólicos resgatam a memória do Brasil Colônia, como o quartel da tropa, a casa do comandante, as casamatas, os paióis de pólvora e a Capela de Santa Catarina, da qual a fortaleza recebeu seu nome. O Patrimônio Histórico Nacional tombou a construção em 1938, mas os esforços de restauração só começaram em 1974 — e exigem manutenções constantes.

Contudo, apesar dos percalços burocráticos, a beleza da estrutura perdura, fincada no solo que sustenta essa memória, e atrai admiradores de todo o país. Uma delas é Leandra Tavares, natural de Uberlândia, no interior do estado de Minas Gerais, que escolheu o destino por influência da família. “É a coisa mais linda do mundo. A gente está encantado. Nunca sonhava ver um negócio assim. A gente não conhece muito da história, porque é nossa primeira vez aqui, mas é tudo muito bonito. Meu filho trabalha em uma agência de viagens e sempre indica a fortaleza para as pessoas”, confidencia.

Como ela, o turista Adalberto Cardoso, do Rio Grande do Sul, expressa um deslumbramento similar frente à grandeza da edificação. Ao lado da esposa, ele adentrou no passado de uma comunidade em construção, rastro concreto de uma ancestralidade nacional. “Essa é uma experiência em que você vê a nossa origem, queira ou não queira. O forte permanece intacto. É uma história bacana, de como ele foi construído até os dias de hoje. Isso é maravilhoso, e é a história do Brasil. Ao caminhar ali, você começa a sentir como se estivesse 500 anos atrás”, reflete.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.