As substâncias emitidas por escapamentos de veículos automotores, alguns setores industriais e outras atividades humanas afetam a qualidade do ar e a saúde das pessoas, sobretudo em grandes centros urbanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que 99% da população mundial respiram ar poluído e estima que, a cada ano, sete milhões de mortes prematuras em todo o mundo estão relacionadas à poluição do ar. O problema pode provocar reações imediatas, como irritação nos olhos, nariz e garganta, além de, em longo prazo, influenciar no desenvolvimento de doenças respiratórias, cardíacas e alguns tipos de câncer.
Segundo a cartilha Poluição do ar, câncer e outras doenças: o que você precisa saber?, o ar contaminado emite um grande conjunto de agentes cancerígenos. Já em ambientes fechados, o risco está na exposição à fumaça do tabaco, às partículas originadas de materiais de construção e mobiliário, ao radônio natural — gás radioativo que emana de rochas e solos —, dentre outras fontes. O documento aponta que há, no mundo, um grande número de constituintes químicos no ar com potencial carcinogênico, os quais variam de acordo com as fontes de poluição, as condições climáticas e a topografia da região.
“A mortalidade causada pela poluição do ar é equivalente à mortalidade decorrente do uso de produtos de tabaco e superior aos casos de mortalidade associados à ingestão excessiva de sal. Em todo o mundo, estima-se que a poluição do ar é responsável por cerca de metade das mortes infantis por pneumonia, o equivalente a 570 mil mortes de crianças menores de cinco anos. Essas mortes estão associadas à poluição em ambientes externos, internos e à exposição ao fumo passivo”, destaca a cartilha. Ainda conforme a publicação, lançada, em 2021, pelo Ministério da Saúde (MS) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), a exposição crônica à poluição do ar pode aumentar o risco de câncer de pulmão de 20% a 30%.
De acordo com Luciana Alves da Nóbrega, professora de Química e doutora em Modelos de Decisão e Saúde pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sempre existirão poluentes na atmosfera. Porém, quando eles ultrapassam as concentrações estabelecidas pela legislação, as quais variam de acordo com o material analisado, isso pode causar sérios danos à saúde e ao meio ambiente.
“Mesmo o ar aparentemente limpo pode conter partículas e substâncias gasosas que prejudicam a saúde. Então, a qualidade do ar ruim afeta a qualidade de vida da população, e isso acontece mais nos grandes centros urbanos, atingindo principalmente o sistema respiratório. O problema também pode causar outros impactos, como cardiovasculares e até neurológicos. E existem alguns efeitos também imediatos, como tosse, cansaço, dores de cabeça, crises alérgicas e agravamento naquelas pessoas que já têm problema de asma”, alerta.
A pesquisadora também explica que alguns públicos podem ser mais sensíveis aos efeitos da poluição, como crianças, gestantes, pessoas idosas, asmáticas ou com doenças respiratórias ou cardiovasculares. “A exposição contínua ao ar poluído funciona como uma agressão silenciosa ao organismo em longo prazo. E quem mais polui, na verdade, são os veículos automotores, até mesmo pela sua quantidade, principalmente os que queimam diesel, como caminhões e ônibus, que costumam emitir uma grande quantidade, sobretudo, de material particular”, afirma Luciana.
Segundo ela, além dos poluentes gasosos, há, na atmosfera, partículas microscópicas, as quais são facilmente inaladas pelas vias respiratórias. “Elas conseguem penetrar profundamente os pulmões e atingir, dependendo do tamanho da partícula, a corrente sanguínea”, comenta.
Substâncias
O chefe da Divisão de Controle da Poluição da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), Rhafael Cainã Santos de Melo, aponta para o perigo do monóxido de carbono, um dos principais poluentes que afetam a qualidade do ar. “Esse gás tóxico compromete o transporte de oxigênio no sangue ao se ligar à hemoglobina, podendo causar desde tonturas e mal-estar até casos graves de asfixia. Já os óxidos de nitrogênio, especialmente o dióxido de nitrogênio, possuem elevada toxicidade e podem causar irritação nas vias respiratórias, ardência nos olhos e danos pulmonares. Em níveis elevados, podem provocar insuficiência respiratória. Além disso, esses compostos também contribuem para a formação de ozônio troposférico e para processos de degradação ambiental”, esclarece.
Rhafael ressalta que, além da saúde humana, a poluição atmosférica também atinge o meio ambiente, trazendo consequências como alterações climáticas, degradação da vegetação, acidificação de solos e de corpos d’água, prejuízos à fauna e aos ecossistemas urbanos e naturais. O chefe da Divisão de Controle da Poluição da Sudema evidencia, ademais, a importância das indústrias e das queimadas como influenciadoras da poluição atmosférica. “No caso da Paraíba, embora o estado não possua um perfil fortemente industrializado, há influência significativa da atividade sucroalcooleira. A queima da palha da cana-de-açúcar e do bagaço utilizado em caldeiras pode emitir poluentes como material particulado, óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre e monóxido de carbono”, explica.
Chegada do inverno aumenta risco de chuvas ácidas
Durante o inverno, especialmente nas regiões onde ele é mais rigoroso, a poluição atmosférica tende a se intensificar. Isso se dá por causa da ocorrência mais frequente da inversão térmica. Geralmente, o ar quente que está próximo à superfície sobe e permite a dispersão dos poluentes na atmosfera. Na inversão térmica, contudo, uma camada de ar quente permanece acima de uma camada de ar frio próxima ao solo, impossibilitando a circulação do ar.
“Esse fenômeno ocorre principalmente durante as madrugadas e nas primeiras horas da manhã, sendo mais comum em períodos de temperaturas mais baixas e menor circulação atmosférica. Como consequência, os poluentes ficam concentrados próximos à superfície, aumentando os riscos à saúde da população e reduzindo a qualidade do ar, especialmente em áreas urbanas com grande fluxo de veículos e outras fontes emissoras”, afirma Raphael Melo.
Luciana Nóbrega ressalva que, em nossa região, o fenômeno ocorre de forma diferente, uma vez que o inverno é bastante chuvoso. “A chuva funciona como uma espécie de lavagem, limpando a atmosfera. Quando chove, muitas partículas suspensas no ar acabam sendo carregadas para o solo, diminuindo os níveis de concentração dos poluentes [na atmosfera]”, explica.
Há, todavia, um perigo nessa interação entre a chuva e determinados poluentes. A queima do diesel, por exemplo, libera dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre no ar. Ao reagir com a água, tais componentes dão origem ao ácido sulfúrico e ao ácido nítrico, substâncias que afetam os rios e lagos, podendo torná-los mais ácidos. “Inclusive, se eles reagirem com a chuva na atmosfera, formam a chamada ‘chuva ácida’”, pontua a professora.
Como forma de mitigar o problema da poluição atmosférica, Luciana defende que políticas públicas são essenciais. “Para reduzir realmente os níveis de emissões, temos que reduzir o uso de carros e usar mais transporte coletivo. Então, precisamos ter investimento em transporte coletivo, ou em outros tipos de transporte alternativo, como bicicletas. Inclusive, quanto aos veículos, é importante fazer a manutenção adequada também”, orienta.
Ela também destaca que é necessário combater queimadas e investir em maior arborização dos espaços, já que as árvores ajudam a diminuir os níveis de poluição na atmosfera. Até por isso, quem reside em áreas rurais, com menos fluxo de trânsito e mais áreas verdes, costuma ser menos afetado pela poluição do que quem vive ou circula diariamente em grandes centros urbanos ou nas margens de rodovias.
“Quando falamos da qualidade do ar, falamos de poluição ambiental. Eu sei que é uma questão de meio ambiente, mas hoje, no nosso século 21, isso é um problema de saúde pública”, alerta a professora e pesquisadora. Ela discorre, ainda, que a poluição atmosférica pode ser silenciosa, o que a torna mais difícil de ser evitada, já que a população é atingida diariamente pelo simples fato de respirar. Por isso, se nada for feito, a situação pode chegar a níveis insustentáveis.
Monitoramento da Sudema comprova benefício da arborização
Desde 2021, a Sudema vem estruturando a rede de monitoramento da qualidade do ar no estado da Paraíba, com foco inicial na avaliação da concentração de material particulado atmosférico. Para isso, vêm sendo utilizados dois tipos de sensores: um destinado, em especial, ao material particulado (MP) — minúsculas poeiras, fumaças ou líquidos em suspensão no ar — e outro que monitora simultaneamente MPs e partículas totais em suspensão (PTS) — categoria que engloba todas as partículas, independentemente do tamanho. “O monitoramento é realizado em diferentes escalas espaciais, contemplando tanto áreas de bairro quanto regiões urbanas mais amplas, permitindo compreender o comportamento dos poluentes em diferentes contextos ambientais”, explica Rhafael.
Segundo ele, o trabalho segue as orientações do Ministério do Meio Ambiente para regiões que estão estruturando suas redes de monitoramento. “Em relação aos limites toleráveis, a legislação brasileira utiliza como referência os parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde [OMS]. Esses valores indicam concentrações abaixo das quais os riscos à saúde são reduzidos. No entanto, a própria OMS reconhece que não existe um nível absolutamente isento de risco, motivo pelo qual os parâmetros vêm sendo atualizados e reduzidos à medida que novas evidências científicas são produzidas. A atualização mais recente, publicada em 2021, reduziu significativamente os valores-guia de diversos poluentes atmosféricos, reforçando o alerta sobre os impactos da poluição do ar na saúde humana”, expõe.
Para Rhafael, as áreas verdes em meio às cidades atuam como uma barreira natural capaz de reter parte do material particulado presente no ar. Estudos preliminares desenvolvidos pela equipe técnica da Sudema demonstraram esse efeito na prática. “Inicialmente, um equipamento de monitoramento foi instalado nas proximidades da Avenida Pedro II, em João Pessoa, onde registrou determinados níveis de material particulado. Posteriormente, o sensor foi reposicionado em uma área mais próxima da vegetação, no interior do parque, onde houve redução significativa das concentrações registradas, indicando a atuação da vegetação como filtro natural dos poluentes atmosféricos”, detalha.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2026.
