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período chuvoso

Ribeirinhos enfrentam transtornos

publicado: 04/05/2026 09h24, última modificação: 04/05/2026 09h24
Em João Pessoa, há 11 comunidades nas margens de rios, que entram em estado de alerta após precipitações intensas
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Água costuma invadir residências, dificultando a locomoção e levando à perda de móveis | Fotos: Evandro Pereira

por Samantha Pimentel*

Com a chegada do inverno, as chuvas intensificam-se no Litoral da Paraíba. Nesse período, quem mora em áreas de risco, como as comunidades ribeirinhas, sofre com alagamentos, perda de bens materiais, exposição a doenças, além de outros transtornos — uma rotina marcada pela preocupação, que afeta a saúde mental e a qualidade de vida. Segundo a Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil de João Pessoa (Compdec-JP), o município possui, hoje, 11 comunidades ribeirinhas principais, que entram em estado de alerta crítico a cada época de precipitações intensas.

Um desses locais é a comunidade São Rafael, localizada às margens do Rio Jaguaribe e próxima ao Jardim Botânico Benjamin Maranhão (JBBM) e à Mata do Buraquinho, a maior reserva de Mata Atlântica em área urbana do Brasil. No local, é comum que, após chuvas intensas, o nível do rio suba e a água chegue às ruas, entrando em algumas casas. Na semana passada, a jovem Rayane Ferreira dos Santos, que está grávida e reside perto da margem do rio, acordou com sua casa alagada. “A sorte foi o meu sobrinho que levantou as coisas lá, porque, sempre que chove, é assim. A casa da minha mãe e a do meu irmão também estão alagadas”, relata.

Segundo Rayane, os alagamentos já danificaram seus móveis e eletrodomésticos várias vezes, assim como ocorreu com outros vizinhos. E a tendência de aumento nas precipitações torna constante a apreensão de quem pode perder tudo a qualquer momento. Muitos moradores relatam que já passaram várias noites rezando, pedindo que a água não invada suas residências. Reclamam, também, que o conjunto habitacional para onde serão deslocados — ligado ao Programa João Pessoa Sustentável — ainda não foi entregue. “Disseram que nós íamos sair daqui primeiro, mas infelizmente, até agora, nada”, lamenta Rayane. A população também cita que já houve problemas com a coleta de lixo, contribuindo para a sujeira e atraindo insetos e outros animais.

“A gente mesmo se ajuda, porque não vem ninguém aqui nos ajudar. A gente perde máquina, televisão, perde tudo aqui. Esses alagamentos não são de hoje, e a gente mora aqui não é porque a gente quer, é porque a gente precisa”, comenta outra moradora, Rayane Santiago de Sousa.

Residindo no local há mais de 70 anos, José Marcos de Souza Vieira conta que sua casa não costuma alagar, mas, por estar próximo do rio, também será remanejado para um apartamento, no âmbito do Programa João Pessoa Sustentável. Ele reconhece os motivos que justificam esse cenário, mas se preocupa com a mudança na dinâmica de vida, já que, na comunidade, ele está próximo de sua irmã — distância que aumentará após o novo endereço.

Além disso, José terá que sair de uma casa com espaço mais amplo para um apartamento, além de se acostumar com as regras de um condomínio. “Não sei como vai ser a minha vida e a de muitos idosos que dependem da família e que precisam da ajuda dos familiares”, pondera.

Outra moradora, Maria Leite Ferraz Marinho, aponta que, diferentemente de anos anteriores, a prefeitura não realizou, em 2026, os serviços de limpeza e dragagem do rio para evitar transtornos e alagamentos. Maria também não se mostra satisfeita com a mudança, que a separará das árvores frutíferas cultivadas em seu quintal. “Na minha casa, a água, no máximo, entra no quintal, não chega dentro dos cômodos. E minha casa tem três quartos, sala, cozinha, terraço e terreno à vontade para as crianças correrem. Lá, a gente vai ficar em uma gaiola, praticamente”, lamenta.

São José

Ter a água adentrando as casas e alagando as ruas também é uma rotina na comunidade ribeirinha São José, igualmente localizada no curso do Rio Jaguaribe. Marcos Antônio da Silva, que reside na área há mais de 50 anos, conta que a situação já foi até pior, tendo melhorado após limpezas no rio. “Sempre que chove, alaga tudo, e, na minha casa, já entrou água várias vezes. Teve uma vez que perdi tudo. A gente estava dormindo, quando acordamos a água estava pela altura do joelho. Agora, quando chove, a gente se previne logo e bota tudo em cima dos tijolos, porque, quando começa a alagar, é ligeiro demais para a água entrar”, declara. Apesar das dificuldades, ele não pensa em sair do local. “Para mim, é o melhor bairro de João Pessoa para morar. Mesmo com esse sofrimento todo, eu gosto daqui”, afirma.

Políticas habitacionais devem ser intersetoriais, defende especialista

O presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil — Departamento da Paraíba (IAB-PB), Fabiano Melo, explica que as desigualdades sociais se refletem no território. “Esses espaços, como as favelas e as áreas ribeirinhas, são muito frágeis, muito vulneráveis. Muitas famílias ocupam essas áreas por falta de opção”, observa. Segundo ele, o acesso à moradia é um direito constitucional. “É importante não criminalizar, mas entender essas pessoas como vítimas de um processo de produção do espaço urbano que não conseguiu dar conta dos direitos básicos da sociedade e fornecer uma opção viável para eles morarem”, destaca.

O arquiteto comenta, ainda, que, por muito tempo, os moradores desses locais foram tratados como problema e que se falava apenas da solução de conjuntos habitacionais, cujo objetivo é retirar as pessoas dessas áreas. Após a criação do Ministério das Cidades, porém, tornou-se mais recorrente o entendimento de que as políticas habitacionais devem ser articuladas com políticas de outros setores.

“É importante salientar também que as vítimas não são apenas as que estão nesses espaços; elas são as [pessoas] mais afetadas, mas, quando há esses episódios da natureza, a cidade toda sofre, com ruas alagadas, engarrafamentos. É preciso entender isso como um problema sistêmico, além das áreas ribeirinhas e de encostas”, argumenta Melo. Ainda de acordo com ele, esses problemas refletem a formação histórica das cidades brasileiras, cuja ocupação e urbanização se deu de forma muito abrupta e sem o devido planejamento.

Sobre os programas habitacionais realizados pelos poderes públicos, o presidente do IAB-PB reforça que eles não deram conta do problema. Além disso, frisa que, para retirar uma pessoa de uma casa para um apartamento, é necessário ser feito, antes, um trabalho educativo e de assistência social sobre as regras e a dinâmica de um condomínio — algo que vem ocorrendo, conforme relatos de alguns moradores da São Rafael.

“Muitas vezes, até as atividades profissionais [são afetadas], como no caso de quem trabalha com reciclagem e precisa de um espaço mais amplo, e as pessoas acabam sendo transferidas para apartamentos muito pequenos. Esse é um problema de desenho desses espaços”, ressalta. Para Melo, as experiências mais bem-sucedidas são as que tratam a transferência dos moradores para outros locais como última alternativa, e, quando isso, acontece, busca-se mantê-las em uma região próxima. Ele defende ainda a necessidade de investimentos em drenagem e melhor estruturação dessas áreas periféricas, para que não sofram riscos e desastres naturais, além da importância de uma assistência técnica para habitações de interesse social.

Prefeitura realiza ações preventivas e planeja entrega de residenciais

Urbanização abrupta e sem planejamento das cidades brasileiras favorece cenário, que é marcado por desigualdades sociais

Buscando reduzir os impactos causados pelas chuvas nas áreas ribeirinhas, a Compdec--JP intensifica o trabalho preventivo de limpeza e desassoreamento dos rios que cortam João Pessoa. Segundo o órgão, no primeiro trimestre de 2026, houve a limpeza em 9.841,51 m de rios, removendo 1.156,38 toneladas de resíduos sólidos. O coordenador da Defesa Civil, Kelson Chaves, salienta a importância da prevenção. “Nós atuamos nos rios durante todo o ano, realizando a limpeza e o desassoreamento para garantir o escoamento das águas e evitar transtornos para as famílias que residem nessas áreas”, afirma.

O coordenador expõe que, além dos sedimentos que se acumulam no leito dos rios, as máquinas retiram garrafas PET, sacolas plásticas, colchões, pneus, carcaças de geladeiras e fogões, entre outros materiais descartados de forma inadequada, que são levados pelas chuvas para as galerias pluviais e, de lá, para os rios. “Muito material é descartado nas margens dos rios e levado para o leito; da mesma forma acontece com o lixo colocado nas calçadas e vias. O ideal é que a população adote a lixeira suspensa para evitar esse problema”, pontuou.

O planejamento dos serviços é baseado no mapeamento de áreas consideradas críticas e no histórico de ocorrências registradas em anos anteriores. A limpeza na comunidade São Rafael, por exemplo, ainda ocorrerá neste ano, segundo informou Kelson. No que se refere a risco hidrológico — possíveis transbordamentos causando inundações —, há trechos críticos no curso dos rios Jaguaribe, Timbó, Cuiá e Gramame. Relacionados a movimentos de massa, as barreiras do Cabo Branco, São José, Alto do Mateus, Terra do Nunca e Comunidade do S também são pontos de atenção.

Moradias

Os conjuntos habitacionais a ser entregues pela prefeitura integram as ações do João Pessoa Sustentável e devem beneficiar oito comunidades no complexo Beira Rio: São Rafael, Tito Silva, Santa Clara, Padre Hildon Bandeira, Miramar, Brasília de Palha, Cafofo Liberdade e Vila Tambauzinho. Ao todo, a ação fará a entrega de 778 unidades habitacionais de um, dois, e três quartos, destinadas às famílias que hoje residem em áreas de risco. As primeiras unidades devem ser entregues a partir de junho.

Já os moradores que foram removidos pela Defesa Civil, por terem suas casas interditadas, estão no programa de aluguel emergencial até que recebam os imóveis. Outras famílias mais numerosas, que optaram pelo Programa Compra Assistida, receberam suas casas, escolhidas por elas, em diferentes bairros da cidade, as quais são pagas pela prefeitura. Foram 117 compras, com um investimento de R$ 13,4 milhões. As comunidades também receberão urbanização e as famílias que ficarem fora da área de risco terão asseguradas a titularidade de seus imóveis, dentro das ações do programa.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.