No primeiro dia de atividades da Operação Orla Limpa, a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) notificou três estabelecimentos situados no bairro de Tambaú, em João Pessoa: o restaurante Bahamas, o Annamar Hotel e a churrascaria Picanha Bastos. A série de vistorias, realizadas por órgãos do Estado e da Prefeitura Municipal, começou na manhã de ontem (09), a fim de detectar possíveis ligações clandestinas na rede de esgoto e em galerias pluviais. A força-tarefa foi proposta pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) como medida emergencial contra vazamentos de efluentes, diante da recente constatação de manchas escuras nas águas do mar pessoense.
Entre os empreendimentos vistoriados, o Bahamas recebeu notificação por não possuir caixa de gordura em conformidade com os padrões exigidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Segundo a Sudema, embora não tenha sido constatado transbordamento ou lançamento irregular de efluentes, a ausência da estrutura adequada pode ocasionar o acúmulo de resíduos e futuros entupimentos na rede coletora da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa). 
O Annamar Hotel foi notificado, por sua vez, em razão da ligação indevida de águas pluviais provenientes de seu telhado à rede de esgotamento sanitário. Na avaliação do órgão de fiscalização ambiental, esse tipo de conexão pode causar sobrecarga no sistema e provocar transbordamentos durante períodos de chuva intensa.
Já na churrascaria Picanha Bastos, as equipes de inspeção constataram a inexistência de caixa de gordura, o que teria contribuído, de acordo com a Sudema, para uma possível obstrução do coletor intermediário entre a caixa de passagem do estabelecimento e a rede da Cagepa. Diante do risco iminente de transbordamento, considerando o alto volume de gordura gerado pela atividade exercida no local, a Cagepa deu início aos procedimentos de limpeza. Além da notificação para adequação de seu sistema, a churrascaria foi autuada por estar com a licença de operação vencida. O prazo para o ajustamento das estruturas irregulares é de 15 dias.
Além do MPPB, da Sudema e da Cagepa, a Operação Orla Limpa reúne representantes da Secretaria do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) da Paraíba e da Secretaria do Meio Ambiente de João Pessoa (Semam-JP), em parceria com a Secretaria de Infraestrutura (Seinfra-JP) e a Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (Emlur) da capital. As atividades também contam com a participação do Batalhão de Polícia Ambiental (BPAmb).
Conforme a Sudema, novas fiscalizações serão realizadas, a partir da segunda-feira (12).
Providência
Em nota sobre o caso, o Bahamas frisou que a adequação da caixa de gordura será providenciada com máxima brevidade. “Ressaltamos que todo o esgoto do Bahamas está interligado com a rede de esgotos da Cagepa e que seguimos com o compromisso de manter nossas belas praias limpas e acessíveis a todos e todas”, concluiu.
A equipe de reportagem contatou os outros dois estabelecimentos citados para repercutir as notificações mas, até o fechamento desta edição, não obteve retorno.
Multas podem somar R$ 5 milhões; casas também serão inspecionadas
Apesar de a Orla Limpa cobrir todo o litoral paraibano, as zonas da orla de Tambaú, Manaíra e Cabo Branco receberão atenção especial, por contribuírem significativamente para os índices de poluição da costa local. Como revelou a secretária do Meio Ambiente e Sustentabilidade do estado, Rafaela Camaraense, o intuito da iniciativa é intensificar as ações de monitoramento, que já acontecem com regularidade. “Nós não estamos olhando apenas as contribuições clandestinas de efluentes, mas também verificando as caixas de gordura de grandes estabelecimentos, porque nós identificamos que a gordura está petrificando, fazendo com que tenhamos obstruções e, em razão disso, alguns extravasamentos”, explicou.
A princípio, a força-tarefa terá caráter educativo, mas as equipes de inspeção ainda exercerão uma atuação ostensiva, além de multas que vão de R$ 500 a R$ 5 milhões. Os estabelecimentos que apresentarem irregularidades podem sofrer embargos e até ter de fechar as portas, a depender do potencial poluidor identificado pelas autoridades. Nas próximas etapas, residências da região também serão fiscalizadas quanto a possíveis pontos de descarte clandestino, de acordo com o secretário do Meio Ambiente de João Pessoa, Welison Silveira.
“A cidade está com uma população bem maior, com a visitação de turistas. A gente vai intensificar a fiscalização, principalmente em padarias, bares e restaurantes, que estão com o público cheio”, pontuou Welison. “Se necessário, os responsáveis têm de fazer a limpeza diária das caixas de gordura. Isso também acontece em condomínios residenciais, em prédios; então é preciso que as pessoas passem a alertar e comecem a verificar, levantar a tampa da caixa de gordura e ver como é que está o nível de saturação”, destacou.
População
Membros de organizações sociais, a exemplo do Movimento Esgotei, acompanharam as ações de ontem. Um deles foi o professor de Engenharia Civil Joácio Morais, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ele concorda com o papel da superlotação da capital na piora da poluição costeira. “Quando há um aumento populacional, há uma grande produção de esgoto. Quanto mais gente, mais esgoto é produzido, até o transbordamento da rede. Uma das hipóteses, a mais forte, é que a rede não suporta esse aumento. Se a velocidade de crescimento populacional for maior do que a preparação da infraestrutura, a cidade entra em colapso”, avaliou.
Além dele, o líder do Movimento Esgotei, Marco Túlio Gusmão, reforçou a urgência de providências para solucionar o problema. “Na verdade, a cidade explodiu nos últimos anos. Isto é praticamente diário: mesmo sem chuva, descem cachoeiras de água suspeitas de contaminação com esgoto e mau cheiro. A população não aguenta mais. É uma questão de saúde pública”, apontou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de janeiro de 2026.