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Universidades analisam notas baixas

publicado: 11/03/2026 08h47, última modificação: 11/03/2026 08h47
Dois meses depois, instituições com rendimento insuficiente discutem as causas do resultado e adotam mudanças
2026.03.10 Enamed - representantes do IFMSA Brazil na Unifacisa © Julio Cezar Peres (1).JPG

Os estudantes que representam a IFMSA caracterizaram as medidas tomadas pela Unifacisa como rápidas e estratégicas | Foto: Julio Cezar Peres

por Maria Beatriz Oliveira*

Dois meses após o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério da Saúde (MS) divulgarem os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025, instituições com desempenho baixo ainda analisam os fatores que podem ter levado às notas insatisfatórias.

Na Paraíba, quatro instituições privadas receberam nota 2 — em uma escala que vai até a nota 5 —, considerada insuficiente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O resultado pode gerar punições como restrição ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), suspensão de vagas e redução no número de ingressantes.

Em Campina Grande, a Unifacisa foi uma das instituições que se manifestaram sobre o resultado, solicitando ao MEC a revisão dos dados. Para o coordenador do curso de Medicina da universidade, Antônio Henriques, a nota baixa não pode ser analisada isoladamente. Segundo ele, a responsabilidade é compartilhada entre instituição e alunos. “Recebemos relatos de estudantes que não realizaram a prova com a devida consciência sobre a importância do exame. Ficamos a apenas um centésimo da nota 3: precisávamos de 60% de proficiência e obtivemos 59,99%. Isso não significa que estamos nos isentando. A instituição reconhece que precisa ajustar algumas abordagens para alcançar o conceito 4 no próximo Enamed”, afirmou.

Para os estudantes representantes da Federação Internacional de Associações de Estudantes de Medicina (IFMSA), as medidas adotadas pela instituição foram rápidas e estratégicas. Henrique Rocha, presidente do comitê regional da IFMSA, explicou que foram implantadas provas periódicas para acompanhar o desempenho dos alunos, além da oferta de uma plataforma digital voltada à preparação para residências médicas.

“A partir do nono período passamos a ter acesso completo à plataforma de residência, além de cursos extensivos obrigatórios desde o início do internato. A coordenação também contratou ex-alunos que tiveram bom desempenho no Enamed para atuar como tutores. Com os testes de progresso focados nos temas mais recorrentes nas provas de residência, acredito que a nota deve melhorar”, relatou Henrique.

Também foi explicado que, a partir deste ano, o Enamed será obrigatório para alunos do quarto ano e representará 20% da nota final do exame, quando realizado novamente ao término da graduação. Para Gabriel de Castro, coordenador regional da IFMSA, a mudança permitirá uma avaliação mais adequada da formação.

“É difícil avaliar seis anos de formação com base em uma única prova. No último ano do curso enfrentamos muitas preocupações, como escolher especialidade, definir onde trabalhar e lidar com a formatura. Além disso, o exame avalia apenas conteúdos teóricos. Nossa formação prática é muito forte, mas não dávamos tanta ênfase à resolução de questões teóricas”, explicou.

Antonio Henriques ressaltou que o Enamed não é o único instrumento utilizado pelo MEC para avaliar os cursos de Medicina. No caso da Unifacisa, a instituição passa por quatro avaliações: conceito de curso, Enamed, Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD) e o Conceito Preliminar de Curso (CPC).

“Temos nota 5 no MEC, no conceito de curso, o que demonstra que nosso projeto pedagógico é consistente e que nossas instalações atendem às exigências do Ministério. Contamos, por exemplo, com um hospital de ensino que é o melhor do estado. Ficamos muito próximos da suficiência no Enamed e acreditamos que esse resultado será recuperado em 2026”, afirmou.

Outras instituições paraibanas que receberam nota 2 foram Unipê, Famene e Afya, todas em João Pessoa. Em nota, o Centro Universitário Unipê afirmou possuir “modelo acadêmico estruturado e validado”, com histórico de qualidade e conceito máximo (5) em visita in loco do MEC. A instituição também informou que mantém diálogo com o órgão regulador para compreender as divergências nas notas divulgadas de dezembro de 2025 a janeiro de 2026. As demais universidades não se pronunciaram.

Egressa

Clara Regina Nascimento, formada em Medicina em 2025 pela Unifacisa, afirma que o resultado da instituição no Enamed foi uma surpresa, mas não atribui a responsabilidade à universidade. Segundo ela, a instituição possui estrutura física e digital de qualidade, além de um corpo docente comprometido. “Na minha visão, o Enamed não é suficiente para medir a proficiência de um estudante de Medicina. É uma prova tradicional, semelhante ao Enem, que muitas vezes reflete mais o momento da realização do exame do que o conhecimento adquirido ao longo dos seis anos de curso”, avaliou.

Clara apontou como principal crítica à formação o grande número de estudantes nas atividades práticas, o que, segundo ela, dificulta um acompanhamento mais individualizado. “Muitos de nós não tivemos a oportunidade de experimentar todas as especialidades médicas ao longo do curso. Isso é consequência de uma admissão muito alta de alunos que acaba impactando a qualidade dos estágios. São muitos estudantes em um mesmo consultório, e isso poderia ser melhorado para proporcionar um aprendizado mais completo”, afirmou.

Críticas

Para a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), o Enamed não é capaz de avaliar a aptidão profissional dos estudantes de Medicina, nem de habilitar ou impedir o exercício da profissão.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), Bruno Leandro de Souza, embora o resultado reforce a necessidade de fortalecer a qualidade do ensino médico na Paraíba e no Brasil, o Enamed tem limitações.

“Ele mede conhecimento teórico e raciocínio clínico em um momento específico. A formação médica envolve também habilidades práticas, ética, comunicação com o paciente, tomada de decisão clínica e desempenho no internato”, explicou. Segundo ele, também devem ser considerados indicadores estruturais, como qualificação do corpo docente, proporção professor-aluno, qualidade dos hospitais de ensino, integração com o SUS e desempenho em residências médicas.

Bruno afirma que, para uma avaliação mais ampla, o Conselho Federal de Medicina (CFM) propõe a criação do Profimed, uma prova de proficiência semelhante ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que poderia impedir o registro profissional de médicos reprovados.

Por fim, o presidente do CRM-PB defende que os estudantes tenham uma postura mais ativa na própria formação. “É importante participar dos colegiados, fortalecer centros acadêmicos, avaliar o curso com responsabilidade e cobrar transparência. Também é fundamental exigir campos de prática real, supervisão adequada no internato e corpo docente qualificado. Nas instituições privadas, a mensalidade não substitui a qualidade pedagógica. O estudante precisa assumir uma postura crítica e comprometida com sua formação e com a sociedade”, concluiu.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de março de 2026.