Notícias

intoxicações em pombal

Agevisa contradiz defesa de pizzaria

publicado: 19/03/2026 08h37, última modificação: 19/03/2026 08h37
Segundo o órgão, o estabelecimento apresentava insetos, alimentos vencidos e ausência de lavatórios

por Bárbara Wanderley*

O proprietário da pizzaria La Favorita, situada no Centro da cidade de Pombal, no Sertão paraibano, divulgou um vídeo para tratar do surto de intoxicação alimentar que acometeu 118 clientes do estabelecimento, no último fim de semana, resultando na morte de uma mulher. No material publicado nas redes sociais, Marcos Antônio Gomes, de 24 anos, presta condolências à vítima fatal, afirma que não sabe o que aconteceu e garante que não teve a intenção de machucar ninguém. Chama atenção, no entanto, um comentário de sua advogada, Raquel Dantas, que também aparece no vídeo, alegando que não havia alimentos estragados na pizzaria. A Agência Estadual de Vigilância Sanitária (Agevisa) — que determinou a interdição do local, ontem — diz o contrário.

Em entrevista ao jornal A União, o diretor-geral da Agevisa, Geraldo Moreira de Menezes, declarou que o estabelecimento apresentava diversas irregularidades, como alimentos vencidos, a presença de insetos e a ausência, em vários pontos, de lavatórios para mãos, o que teria comprometido a higiene no manuseio de produtos por parte dos funcionários.

A gerente técnica de Alimentos do órgão, Conceição Sobral, participou da operação de inspeção da pizzaria e detalhou os problemas constatados. “Foram identificadas falhas no controle de manipulação, ausência de controle adequado de tempo e temperatura, armazenamento irregular dos insumos e inadequações nas instalações sanitárias destinadas à área de manipulação. Também foram observadas fragilidades nos procedimentos operacionais e no controle da qualidade das matérias-primas, comprometendo a segurança dos alimentos e representando risco à saúde dos consumidores”, pontuou.

De fato, Geraldo ressaltou que o estabelecimento não contava com o documento de procedimentos operacionais padronizados (POPs), exigido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que registra, passo a passo, como devem ser realizadas as tarefas rotineiras de higiene e de manipulação de alimentos no local. O diretor-geral da Agevisa frisou, contudo, que a responsabilidade de autorizar o funcionamento de estabelecimentos de baixo risco, como restaurantes e lanchonetes, não cabe ao órgão estadual, mas à Vigilância Sanitária do município.

Investigações

Durante a fiscalização que culminou na interdição da pizzaria, autoridades sanitárias recolheram diversas amostras de ingredientes utilizados nos pratos do estabelecimento, assim como a Polícia Civil da Paraíba (PCPB), que também investiga o caso, coletou amostras de sangue de Rayssa Meritein Bezerra e Silva — a servidora pública de 44 anos que ingeriu uma pizza no último domingo (15) e morreu na terça-feira (17), internada na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Regional de Pombal. Caso os exames comprovem que o óbito está relacionado ao consumo do alimento, o proprietário da pizzaria poderá responder por homicídio culposo, conforme explicou o delegado responsável pelas apurações, Rodrigo Barboza.

Segundo o delegado, o empresário ainda pode ser enquadrado na Lei nº 8.137/90, que define crimes contra a ordem tributária, econômica e as relações de consumo. Essa legislação prevê detenção de dois a cinco anos, ou multa, para quem vender matéria-prima ou mercadoria imprópria para consumo.

Rodrigo Barboza ressaltou, porém, que só será possível verificar se houve alguma conduta passível de responsabilização criminal após o resultado dos testes, o que deverá levar algumas semanas. Ele esclareceu que a própria polícia procurará as outras vítimas para colher depoimentos, já que os órgãos de Saúde possuem a lista de quem precisou de atendimento médico por intoxicação alimentar desde o fim de semana.

Declaração nas redes

No vídeo divulgado nas redes sociais, o proprietário da La Favorita, Marcos Antônio, relata que atua no ramo alimentício há cerca de seis anos e que ele mesmo acionou a Vigilância Sanitária de Pombal diante do surto local. “Preciso da verdade para me sentir bem”, disse.

Já a advogada Raquel Dantas apontou, contrariamente ao que informa a Agevisa, que a interdição da pizzaria decorreu por questões estruturais, como paredes sem revestimento e inadequações na instalação elétrica. Ela chegou a argumentar que pode ter havido uma coincidência e os clientes que adoeceram estavam com alguma virose.

Entenda o caso

No domingo e na segunda-feira (16), 118 pessoas deram entrada no Hospital Regional de Pombal e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade, apresentando sintomas como vômito, diarreia e dores abdominais. Verificou-se que todos os pacientes tinham comido pizzas da La Favorita.

De acordo com o diretor clínico do hospital, Levi Neto, Rayssa Meritein, vítima fatal do surto, não possuía comorbidades que possam ter agravado seu quadro. “Até onde a gente sabe, ela não tinha comorbidade. Era uma paciente jovem e ativa. Foi uma fatalidade. Todos nós queremos saber o que houve. O que a gente sabe é que ela chegou [no hospital], foi para a área vermelha e, de lá, para a UTI, mas [seu quadro] evoluiu com uma piora muito importante e, infelizmente, teve esse desfecho”, contou. Os outros 117 pacientes receberam alta.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 19 de março de 2026.