Após proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as farmácias de João Pessoa já recolheram os remédios à base de clobutinol das gôndolas. A substância, princípio ativo de xaropes empregados para o combate à tosse, está relacionada ao aumento do risco de arritmia cardíaca grave. A Anvisa suspendeu imediatamente a venda e o uso de todos os medicamentos com clobutinol na última segunda-feira (27), em medida publicada no Diário Oficial da União (DOU).
De acordo com Suzane Vieira, farmacêutica e responsável técnica da Farmácia Vieira, o clobutinol é bastante procurado devido à eficácia no tratamento da tosse seca. “A gente já fez o recolhimento dele para ver qual destino que vamos dar. Vamos entrar em contato com a distribuidora para saber se ela vai ressarcir a farmácia ou se [os medicamentos] vão direto para o descarte”, afirma.
Um parecer da Gerência de Farmacovigilância da Anvisa determinou que o uso dos xaropes com clobutinol na formulação causa mais danos do que benefícios, como explica o gerente técnico de Inspeção e Controle de Medicamentos e Produtos da Agência Estadual de Vigilância Sanitária (Agevisa), Jimmy Carter Santos. Todos os remédios devem ser retirados de circulação para que os fabricantes realizem o recolhimento.
“Eles devem ser recolhidos das prateleiras das drogarias e farmácias de imediato, porque os riscos apontados pela Anvisa são muito grandes. A empresa responsável pela produção do medicamento está fazendo o recall de toda essa medicação que está sendo comercializada. Esse acompanhamento será feito por parte das agências de todos os estados e municípios. O custo-benefício é muito grande”, informa.
A substância
O clobutinol foi introduzido no mercado em 1961. De uso adulto e pediátrico, ele combate a tosse e possui ação direta no sistema nervoso central. Fórmulas farmacêuticas indicavam o medicamento para processos inflamatórios das vias respiratórias e depois de anestesia, assim como na preparação para a realização de procedimentos no pulmão e no tórax.
A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) proibiu a comercialização do remédio em 2007, quando pesquisas científicas identificaram as primeiras relações entre a ingestão da substância e o prolongamento, nos batimentos cardíacos, do intervalo QT — índice que avalia o tempo entre a contração e o relaxamento dos ventrículos. Esse prolongamento provoca alterações na atividade elétrica do coração, as quais podem acarretar casos de parada cardíaca e morte súbita. No mesmo ano, a farmacêutica que desenvolveu a substância, Boehringer Ingelheim, iniciou a suspensão preventiva da venda do clobutinol, diante da indicação da agência e da presença de alternativas terapêuticas mais recomendadas.
No Brasil, o principal produto à base da substância consistia no xarope Hytós Plus, da fabricante União Química, que combinava o cloridrato de clobutinol e o succinato de doxilamina. Versões genéricas da medicação apresentavam frascos de 60 ml, 100 ml ou 120 ml. Na bula do remédio, há um alerta de contraindicação para pacientes diagnosticados com síndrome congênita do QT Longo.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de abril de 2026.