As fortes chuvas registradas ontem (28), em João Pessoa, provocaram alagamentos em diversos bairros, causando prejuízos materiais e transtornos à população. De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), foram acumulados 151,6 mm de precipitação apenas nas primeiras 12 horas do dia, volume considerado elevado e acima das previsões meteorológicas para o dia.
No bairro de Gramame, as ruas Gabriel Felipe dos Santos e Odontóloga Jane Celli de Souza, que integram a comunidade Novo Milênio, estão entre as mais afetadas pelo volume das chuvas. Os moradores relatam que, por volta das 3h, acordaram com a água já dentro de casa, quando começaram a trabalhar para tirar crianças, animais de estimação e móveis das áreas inundadas.
Wilma Lee, habitante do Residencial Nikê, localizado entre as duas ruas, diz que foi possível assistir enquanto a água cobria a garagem e começava a entrar nos apartamentos do térreo. “Moramos no primeiro andar. Meu marido desceu para ver o carro, e ele já estava afundado até a metade. Essa foi a única coisa que perdemos, mas estamos todos mobilizados aqui nos arredores e dá para ver que várias pessoas perderam muito. Ajudamos outros moradores a subir os móveis para o andar de cima e passamos a madrugada desse jeito, tensos”, informou.
Um dos apartamentos no térreo pertence a Márcia da Silva, que mora na região há mais de uma década. Segundo ela, não é a primeira vez que o bairro enfrenta uma enchente, mas a água nunca tinha alcançado níveis tão altos. “Foi como acordar no meio de um dilúvio. A gente já solicitou a limpeza desses bueiros e, há uns 15 dias, a Seinfra [Secretaria Municipal de Infraestrutura] veio. Mas, mesmo assim, agora estamos nessa situação. Minha geladeira, fogão e máquina de lavar molharam, e não sei se vão voltar a funcionar”, lamenta.
Para ela, pelo menos uma parte do problema está relacionada ao aumento da área construída — opinião que é compartilhada pelo vizinho, Josemar Laurentino dos Santos. “A gente sabe que a expansão residencial aumenta a impermeabilização do solo. O alagamento, aqui, nunca tinha sido tão grande, mas recentemente houve a construção de um condomínio, e agora a rede de escoamento não dá conta”, falou o morador, que vive em uma casa, ao lado do residencial, há 16 anos.
“Assistimos à água subir até o retrovisor dos carros. Vimos um ônibus quebrar, sem força para atravessar o alagamento. E ficamos sem ter o que fazer, além de esperar a água baixar para limpar nossas casas e descobrir o que vai dar para salvar”, relata Josemar. Para tentar conter a inundação, ele improvisou uma comporta que ajudou a retardar a entrada da água, mas, ainda assim, precisou passar a manhã cuidando do imóvel.
O ônibus a que Josemar se refere ficou ilhado no cruzamento entre as duas ruas. Vídeos nas redes sociais mostraram o momento em que o Corpo de Bombeiros precisou resgatar os passageiros, por meio do uso de botes.
Também no Novo Milênio, Fabiana de Assis acordou com um de seus dois cachorros pulando na cama, agitado. “Quando acendi a luz, vi que a casa estava alagada. Algumas coisas já estavam saindo do lugar, e a água já tinha coberto o motor da geladeira. Meu cachorro menor estava com muito medo, porque não conseguia subir em nada para sair da água. Mobília, eletrodomésticos, muita coisa foi perdida. É só olhar para fora, que a gente vê pessoas colocando os móveis encharcados na calçada”, apontou.
A reportagem de A União tentou contato com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra-JP), mas, até a publicação desta edição, não obteve retorno.
Aviso
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o alerta amarelo para chuvas intensas foi renovado para 149 municípios paraibanos — entre eles, João Pessoa e Campina Grande — e permanece válido até as 23h59 de hoje, podendo ser atualizado. O aviso prevê precipitações de 20 mm/h a 30 mm/h, ou até 50 mm/dia, além de ventos que podem variar de 40 km/h a 60 km/h. No entanto, segundo o coordenador da Defesa Civil da capital, Kelson Chaves, é preciso permanecer alerta, tendo em vista que o volume registrado ontem foi muito além desta estimativa. “Seguimos atentos. Nossas equipes estão nas ruas, acompanhando in loco as situações e prontas para oferecer auxílio à população”, declarou o coordenador.
Na manhã de ontem, em João Pessoa, a Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana (Semob-JP) também registrou ocorrências relacionadas às chuvas, incluindo falhas em semáforos na Rua Cardoso Vieira, localizada no Centro, no Retão de Manaíra e na Avenida Ruy Carneiro, que já foram corrigidas. Além disso, houve queda de árvores no bairro do Cabo Branco e no anel viário da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no Castelo Branco.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de abril de 2026.
