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Usuários ainda reclamam do sistema

publicado: 02/03/2026 08h37, última modificação: 02/03/2026 08h37
Mesmo com a criação da modalidade de longa permanência e da gratuidade para entregadores insatisfação continua
2026.02.27 Zona Azul © Carlos Rodrigo (3).JPG

Algumas pessoas que utilizam o serviço relatam falhas na execução do sistema eletrônico e falta de vagas prioritárias | Foto: Carlos Rodrigo

por Samantha Pimentel*

Desde a implantação da Zona Azul no município de João Pessoa, muitos usuários relatam dificuldades, tanto no uso dos parquímetros e do aplicativo de cadastro e pagamento, quanto pela necessidade de rotatividade das vagas. As reclamações são constantes. Diante desse cenário, a Prefeitura de João Pessoa, por meio da Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana (Semob-JP), anunciou, nesta semana, duas mudanças nas regras do sistema.

A principal alteração é a criação de uma Zona de Longa Permanência em 15 ruas e avenidas da área central, onde os veículos poderão permanecer estacionados por até cinco horas na mesma vaga, com cobrança equivalente à metade do valor praticado nas demais áreas da Zona Azul Digital. A outra medida prevê gratuidade de uma hora para entregadores que utilizam motocicletas.

A Zona de Longa Permanência abrange as ruas da Areia, Deputado Barreto Sobrinho, Avelino Cunha, Desembargador José Peregrino, Monsenhor Sabino Coelho, Prof. Alice Azevedo, João Amorim e Major José de Barros, além das avenidas Bandeirantes, Monsenhor Walfredo Leal, João Luiz Ribeiro Morais, Eurípedes Tavares, Tabajaras, Engenheiro Clodoaldo Gouveia e Francisca Moura, todas no Centro de João Pessoa. Nessas vias, os usuários poderão adquirir um bilhete único no valor de R$ 7,50 para permanecer até cinco horas na mesma vaga. O custo por hora cai de R$ 3 para R$ 1,50. Segundo a Semob-JP, a sinalização específica dessas ruas será instalada nos próximos dias.

Apesar das mudanças, as queixas persistem. Nas proximidades da Rua Desembargador José Peregrino, a equipe do jornal A União ouviu alguns usuários. Marcos Cesar Queiroz, que utiliza, frequentemente, as vagas da região, relata dificuldades no sistema de cadastro e pagamento, tanto nos parquímetros quanto no aplicativo. “Agora que eu estou aprendendo a usar esse sistema, não é fácil, sinto dificuldade toda vez. Eu não uso esse tempo todo, então para mim o aumento do tempo de permanência não vai afetar tanto, mas seria bom que melhorassem o sistema”, afirma. Ele acrescenta que o aplicativo trava com frequência.

O locutor John Anderson, que trabalha em uma rádio instalada na mesma rua, conta que deixou de estacionar no local desde o início da Zona Azul. Ele passou a utilizar a vaga de garagem de um escritório de advocacia da região, que lhe cedeu o espaço. “Eu passo o dia aqui, chego por volta de 5h da manhã e saio no fim da tarde, então, se fosse para pagar o estacionamento todo dia, ia pesar no bolso. Mesmo agora com a redução do valor e o aumento do tempo para mim ainda é inviável”, destaca.

Ele também comenta o veto do prefeito à modificação no projeto de lei que regulamenta o sistema, aprovado na Câmara Municipal de João Pessoa, que previa isenção da taxa em algumas ruas do Centro. “O pessoal do sindicato da Cagepa, que fica aqui perto, também estava encabeçando isso e conseguiu apoio dos vereadores, mas, infelizmente, foi vetado pelo prefeito. Isso ajudaria quem trabalha por aqui, e até mesmo quem vem resolver alguma coisa nessa região”, afirma.

A fisioterapeuta Paula Paiva, proprietária de uma clínica na Rua Desembargador José Peregrino, também aponta prejuízos. Segundo ela, a Zona Azul tem impactado o movimento do estabelecimento. “Eu perdi pacientes, que não querem vir para cá para não ter que pagar a Zona Azul. E essas máquinas, os pacientes não sabem manusear. É um funcionário que dá conta de uma área enorme, e não consegue atender todo mundo. Muitas vezes, a gente tem que sair da clínica para ajudar os pacientes, que não conseguem fazer o cadastro e pagamento ou débito no meu aplicativo, para não irem embora nem serem multados”, relata.

Paula relata, ainda, que, para evitar o pagamento diário, utilizou uma parte do terreno da clínica que estava ociosa, abriu um portão lateral e construiu uma garagem própria para os funcionários. “Nessa garagem a gente põe o nosso carro, para não ter que pagar a Zona Azul, e mesmo assim nos multaram. Estava parada na frente da minha garagem, que tem a sinalização, e eles passaram e aplicaram a multa. Tive que ir lá para resolver e tirar a cobrança”, destaca.

Paula também reclama da ausência de vagas destinadas a idosos e pessoas com deficiência na região, público que representa parte significativa de seus pacientes. “Só mapearam a rua e pronto. Não vieram aqui, não falaram com a gente para saber das nossas necessidades”, lamenta.

Motofrete

Com as mudanças anunciadas pela Prefeitura, os trabalhadores cadastrados na categoria motofrete passam a ter direito a estacionar gratuitamente por até uma hora nas vagas destinadas a motocicletas na Zona Azul Digital. A gratuidade vale para uma permanência consecutiva de até 60 minutos, sendo proibido o uso contínuo ou sucessivo da mesma vaga além desse período.

Para ter acesso ao benefício, será necessário realizar cadastro prévio, com apresentação de documentação que comprove habilitação, vínculo com plataforma ou serviço de entrega, documentos do veículo e comprovante de quitação do licenciamento, além de idade mínima de 21 anos.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores com Motos, Motoboy, Motofrete e Mototáxi da Região Metropolitana de João Pessoa (Sindmotos-JP), Ernani Bandeira, avalia que a medida deve melhorar a rotina dos entregadores. Ele diz que, em diversas situações o tempo de parada ultrapassa o limite anteriormente permitido, como nos casos em que é preciso aguardar a emissão de nota fiscal ou quando o destinatário demora a receber a mercadoria.

“Antes essa tolerância era de até 20 minutos, o que não dava tempo, porque tem entregas que são mais demoradas. Agora, com a mudança do prazo para até 1h, ficou bem melhor. De fato, atende às demandas da categoria, ao que havíamos solicitado e pleiteado junto à gestão”, afirma.

A partir do dia 9 de março, os trabalhadores interessados deverão acessar o endereço eletrônico portal.semobjp.pb.gov.br e clicar no link específico para realizar o cadastro. O procedimento deverá ser renovado anualmente para manutenção do benefício.

MPPB

Para apurar o modelo jurídico, contratual e operacional da Zona Azul Digital, além de discutir as queixas apresentadas por usuários, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) realizou, no dia 12 de janeiro, uma audiência com representantes da Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP).

Como encaminhamento, o órgão ministerial cobrou ajustes no sistema, especialmente quanto ao impacto da Zona Azul para trabalhadores do Centro, idosos, pessoas com deficiência e cidadãos sem acesso a meios digitais.

Entre os principais pontos listados no documento estão: a realização de estudos técnicos de impacto social sobre servidores públicos e trabalhadores da área central; a apresentação de cronograma e critérios para implantação das Zonas de Longa Permanência; a criação de políticas específicas voltadas a idosos, pessoas com deficiência e à população sem acesso digital; a divulgação de dados consolidados sobre arrecadação, ocupação das vagas e fiscalização; a elaboração de estudos de impacto climático e de medidas para redução da pegada de carbono associada ao sistema; e a apresentação de cronograma detalhado para a construção do edifício-garagem previsto em contrato.

De acordo com o MPPB, uma nova reunião está prevista para o dia 10 de março, quando representantes da Prefeitura deverão apresentar os documentos solicitados e discutir o planejamento dos ajustes requeridos pelo órgão.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de fevereiro de 2026.